Reproduzimos aqui um trecho da publicação “Tecnologia Bancária no Brasil: Uma História de Conquistas, Uma Visão de Futuro”, editado pela Revista de Administração de Empresas da FGV (Fundação Getúlio Vargas) em comemoração dos 20 anos do CIAB. O conteúdo da publicação pode ser acessado também em versão eletrônica.
O excerto abaixo foca os meses que antecederam a implantação do novo Sistema de Pagamentos Brasileiro, em 2002, na perspectiva de Carlos Eduardo Corrêa da Fonseca, então designado como representante dos bancos no Comitê Gestor da Implantação do SPB.
Carlos Eduardo Corrêa da Fonseca
O SPB contou, desde o começo, com o ótimo trabalho do Comitê Gestor. Foi um exemplo de cooperação entre a iniciativa privada, a Febraban e o governo, Banco Central, e por isso deu certo. Comecei a participar desse processo em 2001, quando assumi a comissão de tecnologia da Febraban. O projeto do SPB já estava andando. Havia muita confusão sobre o que era o SPB e como seria sua operação. E, confesso, não fazia ideia de quão complexo era o projeto. Todas as comissões discutiam muito e chegavam a poucas conclusões: comissão de serviços, produtos, contabilidade, tecnologia… E, como sempre, quando a coisa encrenca pra valer, sobra para a tecnologia. Assim, a Febraban me designou para coordenar a representação dos Bancos no Comitê Gestor da Implantação do SPB.
Isso foi, mais ou menos, em agosto de 2001. A data marcada para a implantação do sistema era novembro daquele ano. Começamos a fazer reuniões na Febraban e verificamos que a situação era dramática. Nenhum banco estava com os sistemas em ordem e os produtos ainda não estavam bem definidos. Decidimos contratar uma consultoria para nos ajudar a organizar os debates e estabelecer um plano de implantação que pudesse ser apresentado de forma consistente ao Banco Central. A empresa escolhida foi a Apel, do Aerton Paiva, que a partir de então teve uma decisiva atuação no processo.
Nessa altura tivemos uma primeira reunião do Comitê Gestor, liderada pelo Matta Machado, que abriu a reunião, e depois todas que se seguiram, com uma frase que ficou famosa entre nós; “Eu quero lembrar a todos que este é um comitê consultivo e não deliberativo”. Essa frase dá uma ideia precisa da força que tínhamos nesse comitê, mas o clima era amistoso e estabelecemos um relacionamento bastante bom. Apresentamos as dificuldades que estávamos enfrentando e explicamos que nossa ideia era trazer para a próxima reunião um plano de implantação factível. Proposta aceita, fomos fazer a lição de casa na Febraban. Todas as comissões da Febraban trabalharam com afinco e nos apresentaram um plano propondo implantar o sistema no dia 22 de abril de 2002, estrategicamente, uma segunda-feira.
Levamos o plano para a reunião do Comitê Gestor, preocupados com a possível reação do BC, pois estávamos propondo uma prorrogação de prazo de quase seis meses, todos na Febraban ficaram na expectativa. O plano de implantação foi apresentado na reunião do Comitê, pelo Aerton, com muito profissionalismo, explicações e justificativas bem fundamentadas. E, para a minha surpresa, foi rapidamente aprovado, e o Matta Machado emendou: “Karman, está aprovado, mas lembre-se de uma coisa, desta vez quem marcou a data foram vocês, não tem adiamento”. Ficou, então, marcada a data de 22 de abril.
Eu não tinha plano B nenhum e achava que seria difícil cumprir o prazo, porque nesse meio tempo havia começado a entender o que era o SPB. No Banco Real, havia começado a verificar o sistema muito de perto, pois, até assumir a posição no Comitê Gestor, não havia feito isso. Quando comecei a fazer questionamentos sobre o projeto e entender que tudo estava atrasado, toda a equipe pediu demissão, o que me deixou numa situação bastante complicada. Havíamos escolhido o sistema da Minter, que era a opção de 17 bancos, dentre os quais havia o Itaú. Na época, achávamos que com todos esses bancos o sistema teria de ser bom.
Numa reunião com a Minter percebi que a encrenca era grande, cada um dos bancos estava tentando definir o seu sistema, e o pessoal da Minter estava projetando 17 sistemas diferentes. Quando voltei ao Real, liguei para o Morelli, do Itaú, e disse: “Vamos fazer um acordo, temos de assumir o projeto da Minter e acordar em fazer um único sistema”. Ele me respondeu que eu podia fazer o que quisesse, mas sozinho, porque tinha acabado de se desligar desse grupo e feito outra opção.
Então, chamei os outros quinze bancos que sobraram para fazermos um “pacto de sangue”, para todos usarem o mesmo sistema. O pacto foi aceito e criamos um grupo para gerenciar as especificações. Ninguém iria pedir coisas diferentes. A partir desse ponto, o projeto começou a andar com boa velocidade. Nesse meio tempo começaram os testes com o BC, e foi uma loucura. Tenho de confessar que apostava que o sistema do Banco Central não iria ficar pronto e que, com isso, os bancos ganhariam mais tempo. Triste ilusão. De imediato percebemos que o sistema do BC estava mais adiantado que o dos bancos. Começaram os primeiros testes, desastre total! O nível de performance sofrível, situação complicada. As coisas começaram a melhorar lá para o mês de fevereiro, mas os sistemas ainda exigiam cuidados, toda atenção era pouca. Processar todo o volume previsto não era fácil. O SPB previa processamento de transações de qualquer valor. Nos testes víamos que os sistemas melhoravam, mas a situação ainda era crítica.
No final de março, após uma série de reuniões na Febraban, chegamos à conclusão de que com a performance dos sistemas a implantação do SPB seria praticamente inviável. Os bancos, na Febraban, se dividiram em dois grupos: um queria simplesmente que pedíssemos ao BC o adiamento da implantação, o outro , do qual eu fazia parte, entendia que havíamos assumido um compromisso com o BC e deveríamos apresentar alguma proposta que viabilizasse a data de 22 de abril, mesmo com uma implantação parcial.
Depois de muitos debates, decidimos levar a proposta de implantar o sistema na data certa, mas com valores de transações acima de R$ 5 milhões. Formamos um pequeno grupo para conversar com o Matta Machado, que estava no Rio de Janeiro. Fomos eu, o Pedro Guerra e o Reinaldo Rios. Daqui para a frente, eu gostaria que o Pedro Guerra contasse como foi a reunião.
Pedro Luiz Guerra
Depoimento complementar
Nós tínhamos muito medo daquela reunião. Era um risco forte o sistema ir ao ar na situação em que se encontrava. A briga pelos R$ 5 milhões pelo menos nos dava a alternativa de reduzir substancialmente o volume das transações, uma vez que as transações que considerávamos pequenas eram o grande volume daquele momento. Dois meses antes da reunião recebi uma auditoria do Fed, que também audita o Citibank no Brasil, por ser um banco americano, e passei duas horas num bimonólogo – não houve um diálogo. Os auditores queria provar pra mim que não iríamos conseguir implantar o sistema no dia 22 de abril, que era absolutamente impossível. Minha auditoria interna também dizia que a data não seria cumprida.
Por isso, fomos para aquela reunião com muito medo e bancando a alternativa dos R$ 5 milhões. Dissemos que sem o limite não daria para o sistema entrar no ar. Como membros do Comitê Gestor, teríamos de dizer que a Febraban não poderia apoiar o risco de colocar o sistema em funcionamento com valores menores do que os R$ 5 milhões.
O Matta Machado ouviu nossa proposta, pegou o telefone, fez uma ligação para um celular e falou com o diretor, mas não deixou transparecer nada. Falou em código. Saiu da sala e voltou para a mesa dizendo que o acordo estava fechado. Então, tivemos de voltar e começar a organização da implantação.
Saímos da reunião no BC e fomos para o aeroporto comemorar. Os demais representantes dos bancos estavam nos esperando na Febraban. Quando chegamos e demos a notícia de que havíamos conseguido aprovar a alternativa dos R$ 5 milhões, pensei que fôssemos receber aplausos, mas, para minha surpresa, foi um tumulto geral. Eles questionavam como tínhamos conseguido fazer aquele acordo e como implantaríamos o sistema no dia 22 de abril. Alguns bancos até saíram antes do término da reunião para acelerar o processo, em casa.
Entendi, então, que eles haviam nos dado o mandado de negociar aquele limite com a certeza de que o Banco Central não iria aprovar a proposta. Não contavam que o nosso grande argumento a favor da proposta – de que aquele era o valor necessário para que, se houvesse falha nos sistemas computadorizados, pudéssemos processar as transações manualmente e, assim, nem o Luiz Fernando nem o Matta Machado iriam sair no jornal explicando a pane do sistema, com o processo manual daria para disfarçar qualquer problema. Foi assim que conseguimos implantar o SPB na data acordada. Não houve problemas graves e o compromisso que, também, havíamos assumido com o BC de reduzir os limites de R$ 5 milhões gradualmente foi religiosamente cumprido, estando hoje em R$ 3 mil. Esta é uma das histórias da implantação do SPB.
Tecnologia Bancária no Brasil – Uma história de conquistas, uma visão de futuro. Edição comemorativa dos 20 anos do CIAB. Carlos Eduardo Corrêa da Fonseca, Fernando de Souza Meirelles, Eduardo Henrique Diniz. Coordenação editorial: Sônia Penteado. Publicado pela FGV RAE (Revisão de Administração de Empresas da EAESP)
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